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  • Psicóloga Michely Freitas

Impactos emocionais em adultos com dislexia

Atualizado: 10 de ago. de 2021

Impactos emocionais em adultos com dislexia baseado na Bateria Fatorial da Personalidade: um estudo de caso


Michely Lourdes dos Santos Freitas – mylfreitass@gmail.com

Neuropsicologia

Instituto de Pós-Graduação - IPOG

Rio de Janeiro, RJ, 12 de abril de 2021



Resumo

Este trabalho visa abordar os impactos emocionais causados pela dislexia a partir da avaliação neuropsicológica de um paciente, tendo como base principal a Bateria Fatorial de Personalidade® (BFP), além de seus relatos pessoais, desde o início da vida escolar, até a fase adulta. Este trabalho teve o objetivo de identificar se disléxicos adultos sem um diagnóstico preciso e sem a reabilitação necessária sofrem impactos emocionais a ponto de afetar as atividades de vida diária. Para a realização da pesquisa, foi utilizada a BFP aplicada na avaliação neuropsicológica, realizada no sujeito em estudo, juntamente com o seu relato pessoal colhido durante a avaliação. Os resultados indicam que a criação de um sistema de crenças negativas, em indivíduos com Transtorno específico de aprendizagem, mais especificamente a dislexia, interfere nas relações interpessoais, profissionais e sociais. Concluiu-se que fatores emocionais podem causar impactos, como baixa autoestima, medo de errar, medo de ser descoberto, sentimento de incapacidade, de fracasso, além de ansiedade e depressão.


1. Introdução

A dislexia foi o primeiro termo utilizado para designar diversos problemas relacionados a aprendizagem, indicando a presença de dificuldades na linguagem. Do ponto de vista etimológico, dis indica dificuldade e lexia significa linguagem no grego e leitura no latim (SERRA, GONÇALVES, & NOGUEIRA, 2007, apud PÉRPIO, RUTE & MAIA, LUIZ, 2018).

Ainda que o termo dislexia tenha sido empregado a primeira vem em 1887, sua definição ainda é de grande dificuldade. A crescente curiosidade por parte de professores, pedagogos, psicólogos e outros profissionais preocupados com o insucesso acadêmico, visto que estas pessoas não aprendem de maneira típica, permitiu perceber que a dislexia não era só um grave problema de leitura, afetando também a capacidade de obediência, memorização, relações espaciais e outras dificuldades que impactam na vida diária de um disléxico (ABREU, 2012).

Segundo a Associação Internacional de Dislexia (International Dyslexia Association - IDA, 2002), a dislexia é definida como sendo um transtorno específico de aprendizagem, de caráter neurobiológico, cuja dificuldade apresenta-se no “reconhecimento de palavras preciso e/ou fluente e por habilidades de ortografia e decodificação pobre”.

É importante distinguir dislexia adquirida de dislexia evolutiva. Dislexia adquirida é aquela em que o indivíduo após sofrer uma lesão cerebral, passa a apresentar comprometimentos no processo de leitura, com isso é possível identificar a causa do transtorno. Já na dislexia evolutiva, as dificuldades encontram-se presentes desde o início de aprendizagem da leitura, revelando prejuízos específicos comuns a indivíduos com este diagnóstico, neste caso, a causa é desconhecida (ABREU, 2012). No presente trabalho, nos limitaremos a abordar a dislexia evolutiva.

Diferente do que muitos acreditam, a dislexia não está relacionada a um baixo nível intelectual, muito pelo contrário de acordo com o Manual Diagnóstico de Transtornos Mentais (DSM-V):

As dificuldades de aprendizagem não podem ser explicadas por deficiências intelectuais, acuidade visual ou auditiva não corrigida, outros transtornos mentais ou neurológicos, adversidade psicossocial, falta de proficiência na língua de instrução acadêmica ou instrução educacional inadequada (APA, 2014: 67).


De acordo com a Associação Psiquiátrica Americana (APA, 2014), a dislexia se inclui na categoria de Transtorno Específico de Aprendizagem (TEAp), que é um transtorno do neurodesenvolvimento de origem biológica, tendo como características as dificuldades acadêmicas, persistentes desde o início da escolarização. “Habilidades acadêmicas básicas incluem leitura exata e fluente de palavras isoladas, compreensão da leitura, expressão escrita e ortografia, cálculos aritméticos e raciocínio matemático” (Apa, 2014: 68).

Um componente de fundamental importância, na compreensão da dislexia, é o fator genético, visto que é um dos principais fatores de risco. Segundo Wajnsztejn (2005, apud SCAPINELLI, 2005) de 23 a 65% das crianças com dislexia, apresentam pais disléxicos. Um outro fator de risco, apontado pela APA (2014), é o fator ambiental, onde a prematuridade, baixo peso ao nascer e a exposição a nicotina durante o período pré-natal, aumentam a possibilidade de transtorno específico de aprendizagem.

De acordo com a ABD (2021), a confirmação da dislexia se dá através de avaliação multidisciplinar, podendo envolver diversos profissionais como psicólogos, fonoaudiólogos, psicopedagogos, neurologistas, oftalmologistas, entre outros. Um diagnóstico preciso, independentemente da idade do paciente, permite uma intervenção eficaz, e a identificação de outros distúrbios que possam estar correlacionado.

A falta de um diagnóstico preciso e consequentemente a falta de tratamento adequado, faz com que os sintomas persistam até a vida adulta acarretando, inclusive, prejuízos emocionais, podendo levar a quadros de ansiedade e depressão (BONINI ET.AL., 2010).

Sendo assim, é possível perceber que os danos causados pela dislexia não afetam só a vida acadêmica e profissional, mas também a vida social e afetiva do sujeito. Tendo em vista a falta de conhecimento sobre o assunto, pessoas com dislexia, normalmente são vistas como preguiçosas, desmotivadas, com baixa inteligência e outras características de cunho preconceituoso, que inibem o desenvolvimento do sujeito (BONINI et al., 2010).


Episódios de ansiedade grave ou transtornos de ansiedade, incluindo queixas somáticas ou ataques de pânico, são comuns ao longo da vida e acompanham as expressões circunscrita e ampla das dificuldades de aprendizagem (APA, 2014: 72).



É comum a presença de sentimentos de fracasso e frustação, em indivíduos com o referido Transtorno de Aprendizagem (FRANK, 2003). Segundo Bonini e colaboradores (2010, apud SELIKOWITZ, 2001), os obstáculos são percebidos pelos indivíduos que escolhem superá-los ou não, levando-os a criação de estratégias nem sempre adequadas para enfrentar o problema.

Alguns fatores podem dificultar o diagnóstico diferencial de dislexia, como por exemplo as comorbidades, já que os próprios fatores comórbidos impactam na execução das atividades de vida diária (APA, 2014).


O transtorno específico da aprendizagem costuma ser comórbido com outros transtornos do neurodesenvolvimento (p. ex., TDAH, transtornos da comunicação, transtornos do desenvolvimento da coordenação, transtorno do espectro autista) ou com outros transtornos mentais (p. ex., transtornos de ansiedade, transtornos depressivo e bipolar). (APA, 2014: 74).


O presente trabalho, tem por objetivo, descrever, analisar e discutir aspectos emocionais de um paciente com diagnóstico de dislexia, através da observação e utilização dos dados apresentados em sua avaliação neuropsicológica, principalmente da Bateria Fatorial de Personalidade. Este tema é de grande relevância, tendo em vista que existem poucas publicações que abordam a dislexia na fase adulta.

Esta pesquisa pretende esclarecer e informar, não só a disléxicos, mas também a pessoas da sua convivência sobre como as implicações emocionais interferem nas relações interpessoais, profissionais e sociais, enfatizando a importância de um diagnóstico e um tratamento adequado. Por meio de um relato real, visa compreender os sentimentos de indivíduos com dislexia, mostrando as estratégias criadas, a partir de um sistema de crenças, com o objetivo de mascarar o problema.

Sem o intuito de generalizar, mas sim nortear outros estudos semelhantes e a profissionais que trabalham com tais casos. Visto que um estudo de caso, permite um conhecimento amplo e profundo da realidade que enfoca.


2. Sujeito em estudo e um percurso metodológico

O sujeito em foco é do sexo masculino, atualmente, tem 28 anos, namora há 10 anos com a primeira namorada, é de uma família com nível socioeconômico alto, sempre estudou em escola particular, atualmente faz faculdade de engenharia mecânica na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Aos 7 anos foi avaliado por fonoaudióloga, tendo hipótese diagnóstica de dislexia, após esta avaliação, fez fonoterapia, apresentando melhora no desempenho. Após o tratamento, não apresentou dificuldades escolares, porém durante a faculdade, por se incomodar com seu desempenho acadêmico e sentir-se desmotivado buscou psicoterapia, sem ter ideia de que a dislexia, ainda se fazia presente na sua vida, pois acreditava que teria sido curado do transtorno quando fez fonoterapia.

Por conta desta descoberta da dislexia, como sendo uma condição neurobiológica, que estará presente por toda a sua vida e por estar há 10 anos cursando engenharia, decidiu passar um processo de avaliação neuropsicológica em 2021, a fim de confirmar a hipótese diagnóstica e entender quais seriam as suas dificuldades cognitivas.

Como base para o estudo de caso, o material empírico utilizado, é o depoimento pessoal do sujeito e a Bateria Fatorial de Personalidade® (BFP), que “é um instrumento psicológico construído para a avaliação da personalidade a partir do modelo dos Cinco Grandes Fatores (CGF), que inclui as dimensões: Extroversão, Socialização, Realização, Neuroticismo e Abertura a experiências”

(NUNES, HUTZ & OLIVEIRA NUNES, 2013). Este material foi retirado da avaliação neuropsicológica, que teve duração de 2 meses.

Este processo foi realizado com a permissão do sujeito, executado pela pesquisadora que atendeu e realizou a sua avaliação neuropsicológica.

O presente estudo de caso partiu dos dados coletados através da aplicação e correção informatizada da BFP, no dia 27 de janeiro de 2021, no Rio de Janeiro. De acordo com os dados da interpretação informatizada BFP, foram encontrados alguns aspectos específicos relacionados ao seu comportamento e a compreensão da sua autoimagem.


3. Resultado e discussão


3.1. Análise da Bateria Fatorial da Personalidade

A BFP é um instrumento utilizado em avaliação psicológica, que se baseia no modelo dos Cinco Grandes fatores. É composta por 126 itens, onde o indivíduo deve indicar o quanto se identifica com a afirmativa, pontuando na escala, de 1 a 7, o quanto ele acredita que a sentença o descreve. Os itens apresentados no instrumento, subdividem-se em dimensões denominadas facetas, classificadas como: neuroticismo (vulnerabilidade, instabilidade emocional, passividade/falta de energia e depressão), extroversão (comunicação, altivez, dinamismo e interações sociais), socialização (amabilidade, pró-sociabilidade, e confiança nas pessoas), realização (competência, ponderação/prudência e empenho/comprometimento), abertura para novas experiências (abertura a ideias novas, liberalismo e busca por novidades) (NUNES, HUTZ & OLIVEIRA NUNES, 2013).

Com o objetivo de pesquisar a personalidade, a psicologia se preocupa em abranger temas multifatoriais visando ter uma compreensão mais integradora. O Modelo dos cinco Grandes Fatores, aborda diferentes aspectos da personalidade, onde “propões uma visão integradora da personalidade e engloba aspectos da psicologia ao considerar fatores da disposição, características pessoais, considerando a história e contexto social do indivíduo” (HESSE et al., apud NUNES, HUTZ & OLIVEIRA NUNES, 2013).

Os traços de personalidade, podem ser definidos como características psicológicas que representam tendências relativamente estáveis, no modo de pensar, sentir e se relacionar com as pessoas e seu meio social. É uma construção pessoal que vai se formando ao longo da vida, em um processo dinâmico que influencia o funcionamento psicológico (D’AMICO & MONTEIRO, 2010).

A BFP foi aplicada na avaliação neuropsicológica do sujeito com a intenção de entender a forma dele se posicionar no meio social que o cerca, observando o quanto o seu sistema de crenças e traços de personalidade estariam impactando na sua forma de agir. Segue abaixo os dados coletados na correção informatizada e interpretação da bateria.



Fatorial de Personalidade. Os resultados mostrados a partir da correção do questionário respondido pelo sujeito, e o cálculo do escore z e percentil.

Fonte: Correção informatizada da Bateria Fatorial de Personalidade, da editora Pearson (2021)


A BFP nos permite identificar tendências de comportamentos, bem como padrões mais prováveis de atitudes e crenças. Escores altos ou baixos, não necessariamente representam um padrão desadaptado de personalidade. É necessária a observação de outros instrumentos além do contexto em que o sujeito se encontra, e de quanto de fato suas atividades de vida diária são comprometidas (NUNES, HUTZ & OLIVEIRA NUNES, 2013).




Figura 1 – Dados da Bateria Fatorial de Personalidade. Os resultados são mostrados na forma de percentil, de acordo com as respostas apresentadas pelo sujeito no questionário aplicado

Fonte: Correção informatizada da Bateria Fatorial de Personalidade, da editora Pearson (2021)


As informações apresentadas abaixo são todas coletadas do manual da BFP e da correção informatizada, disponibilizada pela editora Pearson.


3.1.1. Facetas do Fator Neuroticismo:

O neuroticismo diz respeito a quanto a pessoa é instável emocionalmente e a quanto ela é capaz de se ajustar, indicando como as pessoas vivenciam as emoções. Está diretamente relacionado aos aspectos emocionais do sujeito.


3.1.1.1. N1 – Vulnerabilidade:

Está relacionado à fragilidade emocional, indicando o quanto o sofrimento emocional é vivenciado pelo sujeito e a dificuldade em tomar decisões por medo de decepcionar. O sujeito em estudo, apresentou escore próximo a média, indicando “padrões comportamentais, cognitivos e emocionais comuns à maior parte da população” (NUNES, HUTZ & OLIVEIRA NUNES, 2013).


3.1.1.2. N2 – Instabilidade:

Apontam para variações de humor, indicando o quanto as pessoas são nervosas e irritáveis. Nesta faceta, o sujeito apresentou escore próximo a média, indicando padrões de comportamento adaptativo.


3.1.1.3. N3 – Passividade:

É composta por itens que indicam o quanto as pessoas se envolvem e se empenham em atividades a fim de resolver de forma rápida, determinada situação. O escore do sujeito, apresentou-se médio, indicando flexibilidade, pois dependendo da situação, ele se envolve de forma intensa ou não.


3.1.1.3. N4 – Depressão:

Esta faceta avalia como o sujeito lida com as adversidades em sua vida, e como é a sua percepção sobre o seu próprio futuro. De forma geral, identifica a forma como o indivíduo interpreta os eventos cotidianos. O sujeito em estudo, apresentou escore alto, indicando que se sente incapaz de lidar com dificuldades que se apresentam na sua vida, além de considerar que sua vida é desinteressante e monótona e que sua expectativa com relação ao seu futuro é negativa.


3.1.2. Facetas do Fator Extroversão:

O fator Extroversão descreve a necessidade de estímulo que o sujeito precisa para alegrar-se, além de indicar determinadas características comportamentais de relação interpessoal, como por exemplo, assertividade, capacidade de comunicar-se atitudes responsivas, entre outras.


3.1.2.1. E1 – Nível de comunicação:

Esta faceta é composta por itens que descrevem o quanto a pessoa se considera comunicativa e expansiva. O sujeito apresentou escore próximo a média, indicando “padrões comportamentais, cognitivos e emocionais comuns à maior parte da população” (NUNES, HUTZ & OLIVEIRA NUNES, 2013).


3.1.2.2. E2 – Altivez:

Indica o quanto a pessoa reconhece a sua capacidade e valor. Nesta faceta o sujeito, apresentou escore muito baixo, indicando a dificuldade de reconhecer o seu valor e suas capacidades, ainda que apontadas por outras pessoas.


3.1.2.3. E3 – Dinamismo / assertividade:

Esta faceta está relacionada a proatividade, e o quanto a pessoa reconhece que se envolve em atividades e que coloca suas ideias em prática. O sujeito em estudo, apresentou escore baixo, demonstrando que tende a demorar a tomar iniciativa, a colocar suas ideias em prática, além não sentir necessidade de se envolver em atividades constantemente.


3.1.2.4. E4 – Interações Sociais:

Descreve a busca da pessoa por interações sociais, como por exemplo, a necessidade de participar de atividades em grupo, festas e outras formas de interagir socialmente. Nesta faceta, o sujeito apresentou escore muito baixo, indicando uma baixa necessidade de interagir socialmente, dificuldade de estabelecer novas relações e preferência por estar sozinho ou com poucas pessoas.


3.1.3. Facetas do Fator Socialização:

Este fator indica como a pessoa se percebe nas relações sociais e interpessoais. O seu interesse e confiança nas pessoas, e o quanto é compatível com as normais de convívio social.


3.1.3.1. S1 – Amabilidade:

Esta faceta indica o a capacidade que a pessoa tem de ser empática, compreensiva e respeitosa com os demais. Nesta faceta o sujeito apresentou escore muito baixo, revelando um comportamento autocentrado, indiferente e com pouca disponibilidade para as pessoas com que convive.


3.1.3.2. S2 – Pró-sociabilidade:

Descreve o quanto a pessoa se adequa a regras sociais, de acordo com a lei e a moral, além de descrever comportamentos de risco. O sujeito em estudo, apresentou escore baixo, demonstrando que tende a se envolver em situações perigosas, demonstrando pouca preocupação com regras sociais.


3.1.3.3. S3 – Confiança:

Descreve a capacidade que a pessoa tem de confiar nos outros. Nesta faceta, o sujeito apresentou escore próximo a média, indicando “padrões comportamentais, cognitivos e emocionais comuns à maior parte da população” (NUNES, HUTZ & OLIVEIRA NUNES, 2013).



3.1.4. – Facetas do Fator Realização:

O fator realização diz respeito a quanto a pessoa é motivada, persistente e organizada, tem objetivos claros e é comprometida com a realização deles.


3.1.4.1. R1 – Competência:

Descreve como a pessoa avalia a sua capacidade de realização, além de identificar o quanto ela está disposta a fazer sacrifícios para alcançar seus objetivos. Nesta faceta, o sujeito apresentou escore muito baixo, demonstrando que sua percepção sobre a sua capacidade é negativa, além de indicar que tende a desistir dos seus objetivos diante de obstáculos pois não apresenta muita disposição para superá-los.

3.1.4.2. R2 – Ponderação:

Esta faceta descreve a forma como a pessoa defende seus interesses e opiniões, avaliando as possíveis consequências de suas atitudes. O sujeito em estudo, apresentou escore médio, indicando que é flexível diante das situações, conseguindo avaliar de forma ponderada.


3.1.4.3. R3 – Empenho:

Esta faceta, também chamada de comprometimento, descreve o quanto a pessoa exige da qualidade dos seus trabalhos, indicando o quão detalhistas elas são. O sujeito apresentou escore muito baixo, demonstrando que tende a investir pouca energia nas tarefas, realizando-as de forma descuidada e pouco comprometida.


3.1.5. Facetas do Fator Abertura:

Este fator, através dos itens das facetas, tem o objetivo de descrever o quanto a pessoa está aberta a novas experiências, se apresenta valores e atitudes rígidas e conservadoras, ou se tende a comportamentos mais exploratórios.


3.1.5.1. A1 – Abertura a ideias:

A escala de abertura de ideias, busca descrever a atração por assuntos relacionados a filosofia, a capacidade de usar a imaginação, o interesse pela arte, música, e outras expressões culturais. Nesta faceta, o sujeito apresentou escore médio, demonstrando interesse em algumas situações, sendo, portanto, flexível.


3.1.5.2. A2 – Liberalismo:

Esta faceta descreve como a pessoa lida com valores morais e sociais, e o entendimento que estes valores podem variar ao longo do tempo e de acordo com a cultura. O sujeito em estudo apresentou escore médio, indicando adequada capacidade de entendimento e flexibilidade.


3.1.5.3. A3 – Busca por novidades:

Os itens desta faceta, descrevem como a pessoa lida com a rotina e sua busca por novas experiências. O sujeito apresentou escore baixo, demonstrando pouco interesse por novidade e desconforto com a quebra da rotina.



3.2. Análise do discurso do sujeito e características observadas na avaliação neuropsicológica:

A partir do discurso do sujeito em estudo e da observação do seu comportamento durante o processo psicoterápico, foi possível observar aspectos específicos do seu comportamento com características emocionais comuns a pessoas com dislexia. E através da observação dos constructos avaliados no processo de avaliação neuropsicológica, foi possível diferenciar quais comportamentos advinham da dificuldade cognitiva e quais advinham do prejuízo emocional.

No discurso, o sujeito, muitas vezes, se avalia negativamente, definindo-se como preguiçoso, sem comprometimento e uma fraude, durante muito tempo, foi se isolando das pessoas, compartilhando muito pouco sobre a sua vida, por medo de “ser descoberto” (sic). Na BFP, podemos observar tais comportamentos através dos escores baixos ou muito baixos alcançados nas facetas altivez, interações sociais e empenho. Tendo em vista que através da interpretação dos resultados pode-se perceber o quanto a sua autoavaliação negativa o prejudica no que diz respeito a cognição social.

O sentimento negativo com relação a si mesmo, faz com que ele não consiga identificar suas potencialidades, não tenha uma perspectiva de futuro e tenha receio em investir em alguma atividade, por medo do fracasso. Como é possível perceber através do escore baixo ou muito baixo alcançado nas facetas dinamismo/assertividade, competência e busca por novidades.

No que diz respeito a sua avaliação neuropsicológica, foi possível constatar que o sujeito apresentou QIT (quoeficiente de intelectual total) médio superior, demonstrando um funcionamento cognitivo adequado com habilidades e/ou facilidades nos seguintes constructos: atenção seletiva, alternada, dividida, volição, memória operacional, percepção visual e memória. Contudo, encontra-se prejudicada, no ponto de vista idiográfico, atenção sustentada, planejamento, controle inibitório, flexibilidade cognitiva, vários aspectos da linguagem, cognição social e humor.

Segundo Fonseca (2009), como critério de seletividade, para que seja considerado dislexia, o sujeito precisa apresentar o Quociente Intelectual (QI) igual ou superior a 80. Com relação a oportunidade educacional, considera-se que o indivíduo tenha tido uma adequada condição pedagógica. Fatos estes correspondes ao sujeito em estudo.


A dislexia não é, portanto, sinônimo de QI baixo, pois pode ocorrer em todos os seus níveis, ou de disfunções visuais e auditivas detectadas por meios médicos convencionais. Também não deve ser considerada na sua definição a evidência manifesta de falta de motivação para aprender a ler, ou da presença de condições socioeconômicas desfavoráveis e desviantes (FONSECA, 2009: 340)


A literatura normalmente dá mais ênfase aos prejuízos cognitivos relacionados a linguagem e processamento fonológico. Porém, outros prejuízos cognitivos, como atenção e funções executivas, encontrados na avaliação neuropsicológica do sujeito, também merecem atenção, visto que são importantes etapas do processamento da leitura e escrita. (LIMA, AZONI & CIASCA, 2013, apud REITER, TUCHA & LANGE, 2005; FRANCESCHINI, GORI, RUFFINO, PEDROLLI & FACOETTI, 2012; LIMA, TRAVAINI, SALGADO-AZONI & CIASCA, 2012).

Boccalandro (2018) define a atenção como sendo “a capacidade para selecionar e manter o controle sobre a entrada de informações externas e o processamento de informações internas necessárias em um dado momento”.

Já as funções executivas, são entendidas como processos cognitivos que atuam de forma paralela, cujo objetivo é integrar e gerenciar funções neurológicas, mobilizando o sistema cognitivo de forma harmônica e funcional, permitindo solucionar problemas e ajudar a adaptação do indivíduo nos diferentes contextos do dia a dia (SEDÓ, DE PAULA & MALLOY-DINIZ, 2015).


As funções executivas básicas são a memória operacional (capacidade de manter uma determinada informação “on-line” em um repositório temporário, para que outras funções cognitivas realizem operações mentais), controle inibitório (capacidade de inibir respostas, distratores e comportamentos já iniciados) e a flexibilidade cognitiva (capacidade de alternar padrões cognitivos e comportamentais de forma adaptada às demandas do contexto). O desenvolvimento dessas funções executivas mais complexas como a capacidade de planejar, resolver problemas e raciocinar de forma abstrata. (SEDO, DE PAULA & MALLOY-DINIZ, 2015: 7).


Segundo Kaufman (2010), é de fundamental importância, no processamento da leitura e escrita, as funções executivas e a atenção, tendo em vista a forma como estes constructos atuam em todas as etapas de processamento de informação, como por exemplo, planejamento, organização de respostas, processamento de estímulos, entre outros.

Estudos realizados por Lima e colaboradores (2012), tem demonstrado que pessoas com dislexia apresentam pior desempenho em tarefas de atenção sustentada e alguns componentes das funções executivas, como por exemplo, planejamento, controle inibitório e flexibilidade cognitiva, dificuldades estas encontradas na avaliação do sujeito em estudo.

Apesar das dificuldades encontradas, o sujeito em estudo apresenta um grande potencial intelectual e consequentemente de aprendizagem. Porém a crença negativa a seu próprio respeito, interfere diretamente na sua motivação e desempenho acadêmico, sugerindo uma desregulação emocional. Demonstrando a necessidade de uma atenção especial no que diz respeito a cognição social e ao humor das pessoas com dislexia.

Segundo estudos realizados por Carceres e Covre (2018) as dificuldades acadêmicas são causadas pela dislexia, mas o autoconceito, também causa impactos no desempenho acadêmico e profissional.

Frank (2003) aponta que aspectos cognitivos e emocionais caminham de forma entrelaçada na dislexia, tendo em vista que os efeitos deste transtorno de aprendizagem, serão sentidos por toda a vida do disléxico, fazendo com que ele se sinta diferente e muitas vezes, inferior dos demais em diversos momentos da sua vida, desde a infância.

Aspectos emocionais como medo e vergonha, gerados a partir das dificuldades cognitivas, são comuns em disléxicos, podendo fazer com que eles se isolem, já que não conseguem lidar com estes sentimentos e pela constante sensação de que podem ser descobertos (FRANK, 2003).

Frank (2003) aponta o quanto o apoio, paciência e compreensão de familiares, amigos e profissionais de educação que cercam o indivíduo, é fundamental para ajudar o disléxico a se conhecer melhor e aprender a viver com seu transtorno, utilizando-se de estratégias adequadas e eficientes, a fim de diminuir efeitos negativos, promovendo confiança, ajudando-o a tornar-se bem-sucedido.

A autoestima é fundamental para crianças com dificuldades específicas de aprendizagem, porque ela as habilita a entrar no ciclo do êxito. De elas acreditarem na sua capacidade, reagirão mais intensamente e passarão a se autovalorizar. Em contraste, a baixa autoestima pode causar um ciclo vicioso de fracasso. A criança tenta fugir do fracasso, evitando os desafios. (BONINI et al., 2010: 313)


Acreditar no seu potencial permite que o disléxico consiga desenvolver suas habilidades, livrando-os do fracasso, por isso, sentimentos de baixa autoestima precisam de uma atenção especial (BONINI et al., 2010).

O diagnóstico de dislexia pode apresentar comorbidade com outros transtornos como por exemplo a depressão. No que diz respeito ao referido transtorno de aprendizagem, muitas vezes a depressão não se manifesta através dos sintomas mais comuns como por exemplo, tristeza, solidão, distúrbio do sono, isolamento, podendo aparecer sintomas como, “dor de cabeça, distúrbio de alimentação, comportamento agressivo e revoltado, regressão no desempenho escolar e abuso de droga ou álcool. (BONINI et al., 2010, apud. SELIKOWITZ, 2001).

O sujeito em estudo apresentou escore alto na faceta depressão, indicando o quanto sua autoavaliação impacta no seu humor, isso também foi possível observar através dos sintomas manifestados como por exemplo, distúrbio alimenta, visto que ele apresenta compulsão alimentar, já tendo passado por uma cirurgia bariátrica em 2018. Segundo seu relato, o transtorno piorou bastante após o ingresso na faculdade, pois acreditava que se utilizava da compulsão alimentar para não ir a aula, tendo em vista que ele parava em uma loja de conveniência no caminho para a faculdade e lá tinha um episódio de compulsão alimentar, que o atrasava e muitas vezes, fazia com que perdesse a aula.

A falta de um diagnóstico precoce e adequado, pode tornar a vida do disléxico muito mais complexa, sendo de fundamental importância uma avaliação profunda e multiprofissional (BONINI et al., 2010).

De acordo com Bonini e colaboradores (2010 apud IANHEZ & NICO, 2002), entender a causa das dificuldades cognitivas do indivíduo, liberta do estereótipo desinteressado, preguiçoso, incapaz e deficiente intelectual, proporcionando alívio.

Sendo assim, mesmo na fase adulta, o diagnóstico para um disléxico é muito importante, diminuindo a angústia pois finalmente “seu problema de há longo tempo será ‘nomeado’, e consequentemente, indicará o caminho a percorrer, proporcionando-lhe confiança e entendimento do seu problema” (BONINI et al., 2010, apud IANHEZ & NICO).


4. Conclusão

Com base na pesquisa realizada neste trabalho a dislexia afeta não só a capacidade de leitura e escrita, mas também a processos cognitivos como atenção e funções executivas, que são importantes para habilidades acadêmicas básicas além da execução das atividades de vida diária.

De acordo com a literatura, com as características observadas no sujeito e a interpretação da Bateria Fatorial de Personalidade®, é possível perceber que a dislexia causa um impacto emocional que interfere diretamente nas relações sociais e profissionais, podendo desencadear transtornos psicológicos, prejudicando ainda mais as funções cognitivas dos disléxicos.

No decorrer do trabalho, observou-se claramente o quanto um diagnóstico preciso e eficiente é importante, para que haja uma intervenção adequada e direcionada para as necessidades do sujeito, prevenindo, desta forma, que surjam e se instalem dificuldades de ordem emocional.

Baseado nos pressupostos levantados nesta pesquisa, cabe salientar que a dislexia é um comprometimento neurológio que não deve ser ignorado, visto que um disléxico jamais deixará e ser disléxico. O conhecimento do indivíduo disléxico a respeito do seu transtorno específico de aprendizagem, é de extrema importância, a fim de que ele possa compreender seu funcionamento e buscar tratamento e estratégias adequadas. O suporte emocional proporcionado por aqueles que cercam o indivíduo auxilia em viver com seu transtorno e alcançar o sucesso desejado na sua vida profissional, pessoal e social.

A Bateria Fatorial de Personalidade® se mostrou como um excelente instrumento que permite discriminar se as dificuldades apresentadas são de caráter cognitivo ou de personalidade.


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